PROFº ADEMIR DA COSTA

segunda-feira, 29 de junho de 2009

A AÇÃO INTEGRALISTA BRASILEIRA EM SERGIPE - PARTE II

Publicada: 21/11/2008 no Jornal da Cidade
Texto: Ademir da Costa (Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Sergipe. Licenciado em História (UFS) e mestre em educação pela Universidade Federal de Sergipe (2003)

Em busca de um posicionamento nessa transição, uma parte da intelectualidade sergipana, alheia ao projeto Integralista local, vai para Salvador entre os anos 35 e 36, para complementação dos estudos, despertada por certo, pelos cursos superiores da Bahia. Alguns participaram ativamente do movimento Integralista da Bahia a exemplo de Seixas Dórea, Manuel Cabral Machado e José Calazans, tendo este último, ocupado vários cargos no Núcleo Provincial da Bahia. O Integralismo propagado na Bahia foi um dos mais combatidos no país, pela forte oposição desencadeada pelo então Governador Juracy Magalhães, inclusive, com confrontos generalizados entre a Milícia Integralista e a polícia baiana. Seixas Dórea e Manuel Cabral Machado, como soldados da Milícia Integralista, participaram de vários motins de reação às investidas de Juracy Magalhães.

Esses intelectuais Integralistas sergipanos propagavam seus ideais agrupados em correntes distintas: a católica e a nacionalista. No campo nacionalista estavam intelectuais que defendiam o estabelecimento da ordem e da construção de um Estado forte, e este, por sua vez, garantido pelo aval popular, forneceria os elementos para a supremacia das frações oligárquicas no projeto de redefinição de forças políticas. Mesmo sem demonstrar, no início, nenhum vínculo político com a oligarquia, os intelectuais buscavam atrelar-se àquele projeto. A corrente católica
consubstanciada no nacionalismo reacionário sob a égide do centro Dom Vital, fruto fecundo do
ideal Jacksoniano, inspirada na trilogia Deus, Pátria e Família – lema básico Integralista – visava, acima de tudo, manter a unidade da Igreja Católica. Nessa perspectiva, essa unidade só seria possível, combatendo ostensivamente as forças dissolventes da nacionalidade: a democracia liberal, segundo o abecedário Integralista, de espírito agnóstico e individualista, o protestantismo, filho dileto do capitalismo ianque, a maçonaria, o comunismo e o espiritismo.

No entender do intelectual e literato Manuel Cabral Machado, essa corrente detinha um espírito menos exaltado, prevalecia seu fulgor intelectual nos escritos jornalísticos, enaltecendo por certo, o brio dos intelectuais militantes, ponto incontestável para o combate das forças contrárias à Igreja Católica.

Apesar da maior parte da intelectualidade sergipana, comprometida com o Movimento Integralista, ter sua origem nas frações oligárquicas, o núcleo provincial era formado por dirigentes pertencentes às camadas médias, entre os quais, profissionais liberais e militares.

Entre os principais intelectuais da Ação Integralista Brasileira, representantes da corrente católica, convém destacar Rubens de Figueiredo, presidente do Centro Dom Vital, seção de Sergipe, membro da Academia Sergipana de Letras e diretor do semanário Boletim Vitalista. Sua simpatia pelo movimento Integralista transparecia nos artigos publicados em jornais e na sua colaboração e apoio prestado à Liga Eleitoral Católica e ao Centro Operário Católico, órgãos importantes da Igreja Católica nos anos 30. Além de Rubens de Figueiredo, podemos destacar ainda, Nelson Sampaio, capitão da Polícia Militar, jornalista e secretário geral da Ação Católica Diocesana.

Sampaio não participava como militante ativo do Movimento Integralista, mas mostrava simpatia ao movimento pliniano. Adepto do pensador Tristão de Atayde, defendia uma ação política conjunta, da ação católica e do Integralismo no cenário local.

Olegário e Silva, também membro atuante da Ação Católica, substituindo ao capitão Nelson Sampaio na Secretaria Diocesana, marca presença no jornalismo sergipano. Tendo um discurso mais exaltado e traduzindo uma postura radical e extremista, combatia com vigor os católicos contrários e indiferentes ao Integralismo. Ressaltava ainda, a importância das corporações religiosas, a Ação Católica e o Integralismo, legítimos representantes da ação, comprometidos com a solução dos problemas sociais.

Porém, é provável que José Amado Nascimento tenha sido o mais proeminente representante da intelectualidade sergipana da corrente católica e do Movimento Integralista. Jornalista, crítico literário, dirigiu o jornal “A Cruzada”, órgão da Ação Católica Diocesana, membro da Academia Sergipana de Letras e Secretário do Núcleo Provincial Integralista de Sergipe. Católico de atuação destacada, oriundo de família humilde, contrariando a regra, pois na sua maior parte, os intelectuais sergipanos provinham de famílias abastadas, ele conseguiu uma posição de prestígio social. Por muito tempo depois, no início da década de 70, no então governo de Lourival Batista; enquanto seu colega de academia, Manuel Cabral Machado ocupava a vice-governadoria, José Amado Nascimento seria indicado, com a chancela deste último, a ocupar um cargo no Tribunal de Contas do Estado.

A corrente nacionalista, na qual participava a maioria da intelectualidade Integralista, adotava uma visão conservadora, de manutenção de uma ordem estabelecida e da defesa dos interesses da sociedade em seu conjunto, entre eles, destacam-se: Omer Mont’Alegre, Agnaldo Celestino, José Calazans, Manuel Cabral Machado, Luciano Mesquita, Antonio Joaquim de Magalhães, Jacinto Figueiredo, Eurípedes Cardoso de Meneses, Passos Cabral, Dr. Ávila Lima e Clodoaldo Alencar.

Como jovens promissores, no auge do Movimento Integralista, iniciaram suas carreiras literárias através da participação nos movimentos estudantis patrocinados pelos grêmios escolares, focos de irradiação do pensamento intelectual sergipano. Com a derrocada do Integralismo, quando da sua ilegalidade como partido político pelo Presidente Getúlio Vargas, boa parte da intelectualidade sergipana Integralista, conseguiu alguns cargos públicos na estrutura do Estado novo. Posteriormente, constituindo-se em elite dirigente, o cenário político estadual estará pontuado por ex-integralistas, principalmente na organização política e administrativa do Estado.

Em linhas gerais, o Movimento Integralista em Sergipe conseguiu aglutinar durante a sua existência, uma gama de jovens intelectuais em meio a uma série de embates políticos e econômicos, oriundos da fase de transição que a sociedade passava. Essa ascendente intelectualidade situava-se entre dois pólos distintos: de um lado, a elite aristocrática latifundiária reestruturando-se politicamente na sociedade, em decorrência da revolução de 1930; de outro, uma fração composta, por uma camada média burguesa, em menor quantidade, que juntamente com aqueles, buscavam a consolidação e extensão dos seus domínios políticos. Paralelo, com estreita relação com os dois pólos, a Igreja Católica, até então ameaçada pelo avanço das idéias de esquerda, cria uma série de mecanismos que lhe possibilitam garantir sua posição secular na sociedade. Contudo, eles forneceram as bases de construção das propostas de mobilização e recrutamento das massas, substâncias para a consolidação do seu ideário.

(Final)

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