PROFº ADEMIR DA COSTA

quarta-feira, 1 de julho de 2009

INTELECTUAIS, FASCISTAS E CONSERVADORES: ESTRUTURA E TRAJETÓRIA DA AIB EM SERGIPE (1933-1938)

RESUMO


Este artigo tem como objetivo contribuir para a discussão teórica a respeito do processo de formação e consolidação do movimento integralista em Sergipe, a partir das estratégias e ações políticas dos intelectuais sergipanos, levando-se em conta o contexto histórico do período, marcado pela ascensão de idéias autoritárias e nacionalistas, pela crise dos anos 20, pela renovação estética e cultural do modernismo e pelo surgimento de novos atores sociais, entre eles, os setores médios urbanos, devido a necessidade de compreensão da proposta e funcionamento da organização, que se transformou no primeiro partido de massas a atuar em todo o território nacional.
Palavras chave: Integralismo. Intelectuais, Práticas políticas, Nacionalismo
ABSTRACT

his article aims to contribute to the theoretical discussion about the process of formation and consolidation of the movement entirely in Sergipe, strategies from the policies and actions of intellectuals Sergipe, taking into account the historical context of the period, marked by the rise of nationalist and authoritarian ideas, the crisis of the 20s, the renewal of cultural and aesthetic modernism and the emergence of new social actors, among them, the average urban sectors, because the need to understand the proposal and operation of the organization, which became the first party of the working masses throughout the country.

Keywords: Integral. Intellectuals, political practices, Nationalism

O Integralismo, movimento ideológico de tendência fascista, foi um dos mais significativos movimentos de massa ocorrido no Brasil nos anos 30. Alicerçado no pensamento autoritário brasileiro, o movimento foi lançado em 1932 por Plínio Salgado, com a publicação do “Manifesto de Outubro”. O Manifesto à nação oferecia ao povo brasileiro propostas de renovação nacional e o início de uma intensa pregação nacionalista, patriótica e cristã contra o Liberalismo e o Comunismo, responsáveis por todos os males do mundo moderno. A Ação Integralista Brasileira conseguiu estruturar-se com grande repercussão através de estratégias políticas dos simpatizantes do Fascismo no Brasil. Os movimentos fascistas europeus dos anos que antecederam a Segunda Grande Guerra Mundial transformaram a face da Europa e do mundo. O Fascismo Italiano e o Nacional-Socialismo alemão foram alvos de várias pesquisas em diferentes áreas, tendo como resultado uma incomensurável bibliografia sobre o tema. O movimento tipo Fascista, em linhas gerais, não foi um fenômeno tipicamente europeu, apresentou variantes e teve repercussão em diversas partes do mundo, observando as particularidades de cada lugar.

Independente das especificidades verificadas no interior do movimento, a Ação Integralista Brasileira congregou em torno do seu ideário vários intelectuais, expandindo-se por todo o país, montando uma estrutura organizacional com base em mitos e símbolos claramente de inspirações fascistas. No contexto dos anos 30, a expansão da AIB se deu de forma diferenciada em cada país. De certo modo, o Integralismo ofereceu um espaço para manifestações de pessoas insatisfeitas, como para aquelas que estiveram ligadas às oligarquias e que se sentiram desalojadas do poder. O Integralismo abriu espaço também para inúmeros grupos de católicos tradicionais, empenhados em combater tanto o Liberalismo quanto o Socialismo.

Com base neste eixo temático, destacaremos as principais questões relacionadas ao Integralismo no Brasil e, em particular em Sergipe. Por isso, justifica-se a importância de uma análise sobre o Integralismo enquanto movimento e partido político, sua presença e atuação no contexto político sergipano. Entender como e de que forma os mecanismos acionados pelo núcleo provincial forneceram as bases para a supremacia do ideário em Sergipe. Muito embora, salientamos que entender a autonomia da sociedade civil pelo viés integralista é extremamente delicado.

A expansão do movimento Integralista deve-se em parte, ao apoio da Igreja Católica, a participação de intelectuais e do Projeto Educacional Integralista. O movimento apresentou uma série de especificidades. Essas especificidades descritivas como concepção de autoridade, rituais e a ideologia do movimento foram evidenciadas em parte, através de uma proposta pedagógica. O caráter doutrinador do movimento se configurou com a consolidação dos mitos e símbolos que fortaleceram o imaginário Integralista.

Os símbolos e ritos, estratégias de padronização e unificação do Integralismo, responsáveis por criar, junto aos militantes, a mística do movimento, constituíam-se também em eficiente estratégia de arregimentação de novos adeptos. Desempenhavam, portanto, no interior da A.I.B., uma dupla função: unificavam e arregimentavam. O Integralista, desde o nascimento até a morte, era controlado por essa ‘legislação’ especial. Além das regras de conduta, do juramento solene e das festas Integralistas, existiam normas específicas para batizados, casamentos e falecimento.

As concentrações Integralistas, em algumas cidades foram impressionantes, chegando a concentrar mais de 40 mil pessoas nas ruas em desfiles militares. Com o propósito de efetivar a propagação do ideário foram construídas, nas cidades onde havia núcleos provinciais, várias escolas de alfabetização e vários núcleos da Juventude Integralista.

A gênese do movimento Integralista está vinculada à Sociedade de Estudos Políticos (S.E.P.) e aos movimentos direitistas de âmbito regional, tais como a Legião Cearense do Trabalho, comandada pelo Tenente Severino Sombra e ao Partido Nacional Sindicalista sob a liderança de Albiano de Melo, posteriormente chefe provincial do Núcleo de Minas Gerais. A Sociedade de Estudos Políticos (S.E.P.), fundada em 1932 em São Paulo congregava jovens intelectuais sob a liderança de Plínio Salgado. Através do S.E.P. Plínio Salgado estabelece as bases de Fundação da A.I.B. Quanto a Legião Cearense do Trabalho, foi considerado o mais expressivo dos movimentos que antecederam a Ação Integralista. A Legião Cearense do Trabalho apresentava um programa combinando aspectos da doutrina social católica tradicional com elementos de inspiração fascistas e se defini em seu programa como uma organização de associações populares e de classe do Estado do Ceará, com finalidade política econômica e social.

A estrutura da Ação Integralista Brasileira montada na mobilização das massas em nível nacional, foi efetivada em fevereiro de 1934, com a realização do Primeiro Congresso Integralista de Vitória, estabelecendo assim os rumos Integralistas, elaborando os estatutos da A.I.B., bem como sua milícia partidária. Em março de 1936, novas diretrizes são traçadas pelo movimento, quando da realização do Segundo Congresso Integralista de Petrópolis. A A.I.B. passando a funcionar como um partido político e estendendo suas atividades ao Centro de Estudos e de Educação Moral, Cívica e Física.

A mobilização das massas era um dos mecanismos de articulação nacional do movimento. A arregimentação dos militantes estava pautada numa série de rituais. Esses rituais visavam o estabelecimento da disciplina e da hierarquia. Entre os rituais, destacam-se pelo seu caráter acentuado a saudação e o uniforme . A saudação Integralista, poderia ser individual ou coletiva e seria prestada às Autoridades, à Bandeira Nacional, ao Hino Nacional, à Bandeira Integralista, às Instituições da A.I.B., às Tropas das Nações, aos Camisas-Verdes em Marcha, aos Integralistas falecidos e entre Integralistas em geral.

O discurso nacionalista da A.I.B. utilizava a face da autêntica cultura brasileira e, neste sentido, as idéias nacionalistas em questão expressavam um grande ressentimento em relação à cultura européia. Valorizava os elementos da cultura indígena, da cultura cabocla, do homem sertanejo, da pessoa do interior, a nação era o grande mito Integralista, portanto, o cosmopolitismo, isto é, a influência estrangeira deveria ser combatida de forma a garantir a união entre os interesses da nação e a ação do Estado.

O crescimento do Movimento Integralista por todo o Brasil se deu, conforme Hélgio Trindade, pela simpatia que parte da população demonstrava em relação aos seguintes fatores motivadores: ao anticomunismo, ao fascismo europeu; ao nacionalismo; oposição às práticas políticas vigentes no cenário político brasileiro.

Neste sentido, a expansão do Integralismo adquiriu feições diferentes, conforme as especificidades de cada localidade. No caso específico de Sergipe, o movimento aglutinou em torno de seu ideário a presença de uma intelectualidade moldada no pensamento autoritário que buscava ascensão política e, também, uma intelectualidade que advogava a tese de impedir que o Brasil chegasse a Liberal Democracia ou ao Socialismo. Numa outra variante, alguns Integralistas estavam ligados às oligarquias que se sentiam desalojadas do poder. Portanto, a gênese do Integralismo em Sergipe, está em parte, associado à adesão do clero católico tradicional, pois, ambos estavam empenhados em combater tanto o liberalismo quanto o socialismo.

1. A Intelectualidade: As bases para a expansão do ideário
O Integralismo surge em meio à efervescência do projeto de consolidação da sociedade burguesa, logo após o triunfo da Revolução de 1930. A pretensão das elites em estabelecer um Estado forte encontrou respaldo na intelectualidade. No interior desse projeto de construção nacional capitaneado pela classe dominante, os intelectuais se inseriram a uma estrutura capaz de garantir e assegurar essa unidade. Para Sérgio Miceli07, nesse período, os intelectuais estavam mais preocupados em manter sua condição de status:

“Devido à ampliação de mercado de bens culturais, associada ao desenvolvimento econômico de certas religiões, em especial São Paulo, foram levados então a renunciar ao antigo estilo de vida das camadas cultas, passando a reconhecer a necessidade de uma ‘profissionalização’ e, ao mesmo tempo, participar dos debates políticos do momento”.


Os anos 20 fomentam a afirmação de uma geração de intelectuais comprometidos com propostas reformistas encontrando ressonância nos anos pós-30. A intelectualidade, a partir de então, define sua postura nos movimentos que vão marcar os anos 20, sobretudo, nos debates que permeariam o centro da questão política. Na direção de movimentos nacionalistas e católicos polarizando com as várias forças políticas e ideológicas, o projeto de modernidade preconizado pela intelectualidade convergia para o plano político-cultural.

Vários intelectuais, a partir dos anos 30, evidenciavam sua participação direta na estruturação do regime, como ocorreu com o Movimento Integralista liderado por Plínio Salgado. O enfoque nacionalista foi a condição essencial para o discurso da intelectualidade absorver o ideário Integralista, bem como, fornecer as condições de formação de um movimento centrado no modelo Mussuliniano e no corporativismo português.

Em Sergipe, por iniciativa do jornalista Omer Mont’Alegre, foi criado, em janeiro de 1935, o Centro de Estudos Plínio Salgado, composto por membros Integralistas, cuja finalidade era analisar os problemas sociais contemporâneos e sua relação deste com os séculos passados. A fundamentação básica partia da análise das obras de Alberto Torres, fiel e legítimo representante do pensamento autoritário. Ex-presidente do Estado do Rio de Janeiro e membro do Supremo Tribunal, Torres é autor de um conjunto de obras que enfatiza, no seu todo, uma preocupação em conclamar a intelectualidade no projeto de construção nacional.08

Omer Mont’Alegre, conduziu a propagação do ideário Integralista em Sergipe com maestria e firmeza, na condição de jornalista, principalmente, pelo jornal “O Sigma”, do qual era redator. Coordenava a forma de reação aos constantes ataques dos arquiinimigos declarados como a Liga Antifascista e a Aliança Proletária de Sergipe.

Os intelectuais, distribuídos nos respectivos Estados apresentaram propostas diversas, todas elas, expressando as variadas correntes filosóficas e teorias em voga. No geral, o intelectual brasileiro apresenta três perfis: o de advogado (eram inúmeros os doutrinários de tendência autoritária com formação jurídica); o de engenheiro (freqüentemente caracterizado pelo positivismo) e inclinado para uma visão técnica do poder e, é claro, o de homem de cultura. Os intelectuais que advogavam o ideário Integralista pertenciam de maneira geral a essas três categorias, sendo, do ponto de vista religioso, encabeçado pelos católicos.

O Integralismo floresce em Sergipe nos centros cívicos dos colégios Atheneu Sergipense e Salesiano, por intermédio de um grupo de jovens idealistas, todos em torno do combate, sobretudo, à liberal-democracia. Essa plêiade de futuros intelectuais sergipanos abraçou as idéias Integralistas, na sua maior parte, logo após a instalação do Núcleo Provincial em Sergipe. Levados por um idealismo acentuado nos domínios político e cultural, proveniente em sua maioria, de antigas famílias oligárquicas e latifundiárias do interior do Estado, preconizavam a revitalização dos valores culturais brasileiros e a necessidade de uma nova ordem, capaz de garantir os mecanismos para a construção da identidade nacional, ameaçada pelos desmantelos da liberal-democracia e pelo avanço das idéias comunistas.Nesse contexto, o Movimento Tenentista e a Revolução de 1930, acentuavam os objetivos de afirmação das classes médias urbanas em detrimento das oligarquias. Como em todo o Brasil, independentes dos movimentos culturais e religiosos, os intelectuais tradicionais buscavam uma consolidação como legítimos representantes daquela classe política ameaçada.Os intelectuais autoritários, como Plínio Salgado e Oliveira Viana estiveram à frente do projeto de construção nacional. O primeiro, afirmava que “o papel do intelectual é efetuar um trabalho de evangelização, inculcando no povo um sentimento de resistência nacional”. O segundo era, nesse aspecto, ainda mais elitista, afirmando que no momento “bastaria apenas ensinar as massas a ler, escrever e contar”.

Partindo desse pressuposto, a nova geração de intelectuais sergipanos, adeptos do Integralismo, da qual faziam parte Manuel Cabral Machado, José Amado Nascimento, Clodoaldo Alencar, Santos Mendonça, José Calazans, os quais galgaram posição de status na sociedade, propagaram o Movimento Integralista no eixo Sergipe/Bahia. Posteriores aos antigos fundadores do Integralismo – Omer Mont’Alegre, Agnaldo Celestino, Jacinto Figueiredo, Ávila Lima e Passos Cabral – os intelectuais dessa geração, imbuídos de uma tarefa política respaldada no positivismo e independentes do seu local de atuação, ajudaram a consolidar o Núcleo Integralista de Sergipe, com exceção de Dr. Manoel Cabral Machado, Seixas Dórea e José Calazans que atuaram de forma marcante no Núcleo da Bahia, logo após o florescimento do movimento em Sergipe.

Em busca de um posicionamento nessa transição, uma parte da intelectualidade sergipana, alheia ao projeto Integralista local, vai para Salvador entre os anos 35 e 36, para complementação dos estudos, despertada por certo, pelos cursos superiores da Bahia. Alguns participaram ativamente do movimento Integralista da Bahia a exemplo de Seixas Dórea, Manuel Cabral Machado e José Calazans, tendo este último ocupado vários cargos no Núcleo Provincial da Bahia. O Integralismo propagado na Bahia foi um dos mais combatidos no país, pela forte oposição desencadeada pelo então Governador Juracy Magalhães, inclusive, com confrontos generalizados entre a Milícia Integralista e a polícia baiana. Seixas Dórea e Manuel Cabral Machado, como soldados da Milícia Integralista, participaram de vários motins de reação às investidas de Juracy Magalhães.09

Esses intelectuais Integralistas sergipanos propagavam seus ideais agrupados em correntes distintas: a católica e a nacionalista. No campo nacionalista estavam intelectuais que defendiam o estabelecimento da ordem e da construção de um Estado forte, e este, por sua vez, garantido pelo aval popular, forneceria os elementos para a supremacia das frações oligárquicas no projeto de redefinição de forças políticas. Mesmo sem demonstrar, no início, nenhum vínculo político com a oligarquia, os intelectuais buscavam atrelar-se àquele projeto. A corrente católica, consubstanciada no nacionalismo reacionário sob a égide do centro Dom Vital, fruto fecundo do ideal Jacksoniano, inspirada na trilogia Deus, Pátria e Família – lema básico Integralista – visava, acima de tudo, manter a unidade da Igreja Católica. Nessa perspectiva, essa unidade só seria possível, combatendo ostensivamente as forças dissolventes da nacionalidade: a democracia liberal, segundo o abecedário Integralista, de espírito agnóstico e individualista, o protestantismo, filho dileto do capitalismo ianque, a maçonaria, o comunismo e o espiritismo.

No entender do intelectual e literato Manuel Cabral Machado, essa corrente detinha um espírito menos exaltado, prevalecia seu fulgor intelectual nos escritos jornalísticos, enaltecendo por certo, o brio dos intelectuais militantes, ponto incontestável para o combate das forças contrárias à Igreja Católica.10

Apesar da maior parte da intelectualidade sergipana, comprometida com o Movimento Integralista, ter sua origem nas frações oligárquicas, o núcleo provincial era formado por dirigentes pertencentes às camadas médias, entre os quais, profissionais liberais e militares.Entre os principais intelectuais da Ação Integralista Brasileira representantes da corrente católica, convém destacar Rubens de Figueiredo, presidente do Centro Dom Vital, seção de Sergipe, membro da Academia Sergipana de Letras e diretor do semanário Boletim Vitalista11. Sua simpatia pelo movimento Integralista transparecia nos artigos publicados em jornais e na sua colaboração e apoio prestado à Liga Eleitoral Católica e ao Centro Operário Católico, órgãos importantes da Igreja Católica nos anos 30. Além de Rubens de Figueiredo, podemos destacar ainda, Nelson Sampaio, capitão da polícia militar, jornalista e secretário geral da Ação Católica Diocesana. Sampaio não participava como militante ativo do Movimento Integralista, mas mostrava simpatia ao movimento pliniano. Adepto do pensador Tristão de Atayde, defendia uma ação política conjunta, da ação católica e do Integralismo no cenário local. Assim, proclamava Nelson Sampaio:
“Na hora que passa, de vida ou de morte, não vejo outro caminho para os brasileiros, sobretudo, os católicos, senão filiaram-se a Ação Católica, que se tiveram pendor mais político, ingressaram nas fileiras Integralistas, cujo ideal político assenta na tradição e no respeito dos princípios que plasmaram a nossa pátria no que ela tem de grande, de imortal e eterno”12Em seus artigos publicados no Jornal A Cruzada, Sampaio, empreendia severas críticas a liberal democracia.

Assim,
“A liberal democracia, de espírito individual e agnóstico criou para o mundo contemporâneo um dilúvio de negação que veio influenciar poderosamente a nossa mortalidade. (…) A liberal democracia prega um conceito errado de liberdade. É um regime ideal da confusão e das negociações, fábrica de libertinos e demagogos “(...)13


Olegário e Silva, também membro atuante da Ação Católica, substituindo ao capitão Nelson Sampaio na Secretaria Diocesana, marca presença no jornalismo sergipano. Tendo um discurso mais exaltado e traduzindo uma postura radical e extremista, combatia com vigor os católicos contrários e indiferentes ao Integralismo. Ressaltava ainda, a importância das corporações religiosas, a Ação Católica e o Integralismo, legítimos representantes da ação, comprometidos com a solução dos problemas sociais.

Porém, é provável que José Amado Nascimento tenha sido o mais proeminente representante da intelectualidade sergipana da corrente católica e do Movimento Integralista. Jornalista, crítico literário, dirigiu o jornal “A Cruzada”, órgão da Ação Católica Diocesana, membro da Academia Sergipana de Letras e Secretário do Núcleo Provincial Integralista de Sergipe. Católico de atuação destacada, oriundo de família humilde, contrariando a regra, pois na sua maior parte, os intelectuais sergipanos provinham de famílias abastadas, ele conseguiu uma posição de prestígio social. Por muito tempo depois, no início da década de 70, no então governo de Lourival Batista; enquanto seu colega de academia, Manuel Cabral Machado ocupava a vice-governadoria, José Amado Nascimento seria indicado, com a chancela deste último, a ocupar um cargo no Tribunal de Contas do Estado. Essa escolha ia ao encontro da prática, no limiar do governo militar, de aparelhar o Estado com técnicos e intelectuais, para torná-lo forte e eficiente.


A corrente nacionalista, na qual participava a maioria da intelectualidade Integralista, adotava uma visão conservadora, de manutenção de uma ordem estabelecida e da defesa dos interesses da sociedade em seu conjunto, entre eles, destacam-se: Omer Mont’Alegre, Agnaldo Celestino, José Calazans, Manuel Cabral Machado, Luciano Mesquita, Antonio Joaquim de Magalhães, Jacinto Figueiredo, Eurípedes Cardoso de Meneses, Passos Cabral, Dr. Ávila Lima e Clodoaldo Alencar.

Como jovens promissores, no auge do Movimento Integralista, iniciaram suas carreiras literárias através da participação nos movimentos estudantis patrocinados pelos grêmios escolares, focos de irradiação do pensamento intelectual sergipano. Com a derrocada do Integralismo, quando da sua ilegalidade como partido político pelo Presidente Getúlio Vargas, boa parte da intelectualidade sergipana Integralista, conseguiu alguns cargos públicos na estrutura do Estado novo. Posteriormente, constituindo-se em elite dirigente, o cenário político estadual estará pontuado por ex-integralistas, principalmente na organização política e administrativa do Estado.

Um fator diferenciador da ideologia Integralista, que congrega a intelectualidade em seu conjunto, são as teses de tendências européias sobre o Estado Integral. Na dimensão deste, a teorização Integralista fundamentava-se no pensamento de três expoentes doutrinadores – Plínio Salgado, Miguel Reale e Gustavo Barroso -, formando três vertentes no interior do movimento e fontes diferenciadas para a propagação do ideário do Sigma por parte dos seus seguidores.


A vertente pliniana ganha maior adesão no seio do núcleo provincial de Sergipe. O Estado Integral Familiar – Corporativo, segundo Plínio, tem como núcleo de base – para, a manutenção da unidade familiar, a organização dos grupos naturais, a partir da intuição e integração, categorias chaves para o desenvolvimento de todos os setores da atividade social, Salgado delineou os postulados essenciais para a constituição do Estado Integral. Pelo método intuitivo ele pretendia penetrar na alma nacional, com o propósito de se aprofundar nas raízes culturais e históricas e chegar ao resultado de uma raça harmoniosa inteirada ao solo brasileiro.

Os principais teóricos do núcleo provincial sergipano viam na teoria pliniana o melhor caminho para a reestruturação da nação e da unidade da família. Por outro lado, intelectuais como Manuel Cabral Machado, Jacinto Figueiredo, Luciano Mesquita e outros, estavam intimamente ligados ao Plínio literato, da corrente verde – amarela do modernismo. A preocupação de todos era incentivar fortemente o espírito nacionalista de cada brasileiro, combatendo as forças adversas do materialismo e da liberal-democracia.

A doutrina pliniana atendia ainda, aos princípios dogmáticos da Igreja Católica, sendo ele um fiel seguidor de Jackson Figueiredo, representante do conservadorismo católico. Essa tomada de consciência sobre o estabelecimento do Estado Integral, muito embora, apresentasse pontos em comum nas três vertentes, encontrava uma maior ressonância no pensamento pliniano, em particular através da intelectualidade católica. O próprio Estado, segundo ele, é uma superestrutura autoritária, inserida numa perspectiva espiritual nacionalista, diferente do que expressava Miguel Reale: “o Estado é o princípio e o fim do universo ideológico Integralista”.14

Por outro lado, a vertente teórica liderada por Miguel Reale, mesmo não encontrando uma aceitação transparente e evidente da intelectualidade Integralista sergipana, tinha seu conteúdo teórico presente nos escritos do jurista Ávila Lima e José Calazans. Para Reale, o Estado Fascista e o Estado Bolchevista são formas geradas pela existência de grupos profissionais organizados e autônomos, destacando em ambos, na sua essência, a integração entre a atividade jurídica e a atividade social do Estado. Na sua análise, bolchevismo é a conseqüência final e indireta do liberalismo, fez desaparecer o cidadão fazendo prevalecer a relação estado-econômico-produtor em detrimento da relação Estado jurídico-cidadão. Desta forma, conforme Reali,

“O Estado readquire a sua soberania plena, identificando-se com a nação. O Estado não se funde com um dos grupos em luta, mas resulta de todos eles, sem predomínio de uns sobre os outros, através da representação econômica, e, ignora-se em, realidade de fins morais.”15


Ávila Lima, por outro lado, numa palestra proferida na sede da AIB sobre liberalismo e Integralismo, assim definiu o Estado Integral pontuando alguns princípios fascistas incorporados ao pensamento de Miguel Reale.

“Todos os objetivos morais, econômicos, intelectuais e estéticos que os indivíduos só ou associados logo podem alcançar constituam outras tantas funções de organismo mais forte, que é o Estado e como tutela do direito não se pode executar com a vingança particular, o Estado faz disto um dos seus principais deveres. As ciências, as artes, as escolas, tem necessidade de um poderoso – e o Estado oferece.”16

A vertente liderada por Gustavo Barroso, esboça uma postura contrária às teorias anteriores; quando na análise histórico-econômica, ele procura as verdadeiras causas da crise econômica nacional, e as encontra a partir de uma relação do império com os banqueiros judeus, no momento posterior à independência, o que naturalmente, teria conduzido a um novo tipo de colonização. A posição de Barroso denota a idéia de um nacionalismo econômico de conteúdo anti-semita. Na sua perspectiva, o judaísmo apatriado é um conquistador e um colonizador dos povos:

“ninguém combate o judeu porque ele seja de raça semita nem porque siga a religião de Moisés, mas sim porque ele age politicamente dentro das nações, no sentido de um plano pré-concebido e levado adiante através dos tempos”17.

No entender de Hélgio Trindade, tanto a nível nacional, como a nível local, o anti-semitismo não chegou a constituir-se no tema ideológico de consenso entre os ideólogos Integralistas. Apesar da influência fortíssima de Gustavo Barroso em Sergipe por intermédio de seu amigo pessoal, o chefe policial, Brigadeiro Agnaldo Celestino, a vertente barrosiana, anti-semita, não era propagada de maneira ostensiva nos discursos e escritos doutrinários dos teóricos Integralistas sergipanos. Embora, muitos dos Integralistas mostrassem repúdio aos judeus.

Nesse sentido, o jornalista Omer Mont’Alegre precursor do Movimento Integralista em Sergipe – discutindo o nacionalismo econômico, deixou transparecer em alguns de seus artigos a tese preconizada por Barroso, nas suas palavras:

“Nesta particularidade não fazemos distinção de raças. Se por ventura, o judaísmo, tem por esta via, sido alvo de nosso ataque, é porque estando em seu poder 60% do agiotarismo internacional e possuindo ele a mística esperança da dominação da raça de Israel sobre o universo. Neste ponto, justamente, nos distanciamos do nacional socialismo-alemão. Achamos anticristão a animosidade entre raças”18
E, em outro momento diz:

“(...) vários outros jornais custeados pelos judeus estão denegrindo a imagem do Movimento Integralista, uma vez que, sua expansão protege o Brasil contra a ambição do domínio do mundo pela raça de Israel”19.

E desta forma, conclui Mont’Alegre:
“Em face do Integralismo, divide-se a imprensa em três classes distintas. Uma delas se constitui dos jornais burgueses, a segunda dos jornais vermelhos, a terceira dos jornais jornalísticos. A primeira combate o Integralismo pela campanha organizada do silêncio, desse mesmo silêncio com que dá combate ao comunismo. É a imprensa burguesa, fria, capitalista, cobradora, que assiste impassível às lutas mais encarniçadas dos partidos. A outra classe é a dos jornais vermelhos, nobres pasquins de galharda atitude, cupins falantes da pátria pregando o marxismo pelo modo que podem e descompondo o Integralismo”.19


Em linhas gerais, o Movimento Integralista em Sergipe conseguiu aglutinar durante a sua existência, uma gama de jovens intelectuais em meio a uma série de embates políticos e econômicos, oriundos da fase de transição que a sociedade passava. Essa ascendente intelectualidade situava-se entre dois pólos distintos: de um lado, a elite aristocrática latifundiária reestruturando-se politicamente na sociedade, em decorrência da revolução de 1930; de outro, uma fração composta, por uma camada média burguesa, em menor quantidade, que juntamente com aqueles, buscavam a consolidação e extensão dos seus domínios políticos. Paralelo, com estreita relação com os dois pólos, a Igreja Católica, até então ameaçada pelo avanço das idéias de esquerda, cria uma série de mecanismos que lhe possibilitam garantir sua posição secular na sociedade. Contudo, eles forneceram as bases de construção das propostas de mobilização e recrutamento das massas, substâncias para a consolidação do seu ideário.

NOTAS* Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Sergipe, Licenciado em História (UFS) e Mestre em Educação pela Universidade Federal de Sergipe (2003). Atualmente é professor do Departamento de Pedagogia e do Núcleo de Pós-graduação e Pesquisa da Faculdade Pio Décimo. Tem experiência na área de História e Filosofia da Educação e Política Educacional com ênfase nos seguintes eixos temáticos: Educação, Estado, Políticas Públicas, Sociedade e Integralismo.
01 O manifesto de outubro de 1932 é um conjunto de doutrinas composto de princípios básicos que permitirão deduzir e organizar uma análise da realidade e apresentar os indicadores do estado Integralista. É composto por dez capítulos: Concepção do universo e do homem; como entendemos a nação brasileira; o princípio da autoridade; o nosso nacionalismo; nós, os partidos e o governo; o que pensamos das conspirações e da política de grupos; a questão social como a considera a ação Integralista brasileira; a família e a nação; o município, centro das famílias, célula da nação e finalmente, o Estado Integralista. Manifesto de outubro, s.n., s.d.
02 Para este fim, a A.I.B., contava com um departamento destinado a desenvolver entre os jovens e as crianças Integralistas o sentimento de civismo com intuito de centralizar e hierarquizar. O departamento dos plinianos estava subdividido em direção e grupos. A direção era subdividida em: Direção suprema, direções superiores, e direções. A direção suprema dos plinianos cabia ao chefe nacional, os plinianos eram crianças e jovens de ambos os sexos, com idade variando entre 14 e 15 anos. Estavam divididos em quatro categorias: infantis, que compreendiam crianças de 4 a 6 anos; curupiras, as de 7 a 9 anos; vanguardeiros, as de 10 a 12 anos; e os pioneiros, os jovens de 13 a 15 anos (CAVALARI, op. cit., p. 71)
03 As atividades da S.E.P., iniciam-se sob a coordenação de órgão coletivo (Grupo de centralização) do qual fazem parte Ataliba Nogueira, Mario Graciotti, Alpinolo Lopes Casali e José de Almeida Camargo. Internamente a S.E.P. organizava-se em várias comissões de estudos. Economia pedagógica, constitucional e jurídica, higiene e medicina social, geografia e comunicações, história e sociologia, religião, política internacional, educação física, arte e literatura e agricultura. (TRINDADE, op. cit., p. 118).
04 TRINDADE, Hélgio. Op. cit., p. 107.
05 A palavra anauê de origem tupi, que era usada como saudação e grito de guerra dos índios daquela tribo, tinha uma conotação afetiva e significava você é meu parente. A escolha de tal palavra pela A.I.B., como aclamação da saudação Integralista em louvor ‘ao sigma’, justificava-se no Integralismo ser grande família dos ‘camisas-verdes’ e um movimento nacionalista, de sentido heróico. O anauê coletivo seria dado nas reuniões e solenidades Integralistas e em lugares públicos, quando houvesse mais de 30 pessoas. O uniforme, aprovado em junho de 1934, composto de: a) camisa simbólica de cor verde inglês, de colarinho pregado e preso por botões nas pontas; passadeiras com 6 cm, na base e 5 nas pontas que devem ser em semicírculo terminando a 1 cm do colarinho; dois bolsos à altura do peito com pestanas retas e abotoadas; no terço médio do braço esquerdo, um círculo branco com 9,5 cm de diâmetro, circundado por um vivo preto de 0,5 cm de largura e sobre o campo branco um sigma preto; b) gravata de tecido preto, liso, com laço vertical caído até próximo ao cinto; c) gorro verde da cor da camisa, de duas pontas, com distintivo idêntico ao do braço; d) calças pretas ou brancas; e) cintos e sapatos de preferência pretos. (CAVALARI, op. cit., p. 193-194).
06 CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro. Op. cit. p. 200.
07 MICELI, S. Os intelectuais e a classe dirigente no Brasil – 1930-1941. São Paulo, 1979.08 Alberto Torres reservou uma parte de seus escritos à realidade brasileira: A organização nacional. São Paulo, 1933. O problema nacional brasileiro. São Paulo, 1932. A partir dos anos 30, as obras de Alberto Torres suscitaram um maior interesse. São desse período os livros de Barbosa Lima Sobrinho, Presença de Alberto Torres (sua vida e pensamento). Rio de Janeiro, 1968 e de Cândido Mota Filho. Alberto Torres e o tema de nossa geração. São Paulo, 1931.
09 Sergipe jornal. Aracaju, 12.02.37.
10 Manoel Cabral MACHADO, entrevista ao autor, 19.02.96.
11 Boletim Vitalista, Jornal Bimestral de circulação gratuita, fundado em setembro de 1933, editado pelo Centro Dom Vital.
12 A cruzada. Aracaju, 05 de maio de 1935
13 A Cruzada, Aracaju, 16 de junho de 1935
14 TRINDADE, Hélgio. Op. cit. p. 224
15 REALE, M. Obras políticas. Brasília, 1983, p. 59.
16 Sergipe Jornal publicou na íntegra a Conferência do Mestre Ávila Lima, realizada no dia 09 de janeiro nas edições 11, 12, 13, 14, 15 de janeiro de 1935
17 TRINDADE. Integralismo. Fascismo brasileiro na década de 30. Rio de Janeiro, 1979, p. 244-245
18 SERGIPE Jornal. Aracaju, 16.06.36
19 O Sigma. Aracaju, 24.07.1934
20 O Sigma, Aracaju, 29 de junho de 1935

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